domingo, 20 de novembro de 2011

CASO PLUVIOSO - Poema de Carlos Drummond de Andrade








A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.


A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.


E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.


Eu era todo barro, sem verdura…
Maria, chuvosíssima criatura!


Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.


Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!


Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.


Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!


Eu lhe dizia em vão – pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.


E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,


que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.


Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!


Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.


Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa


e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.


E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de Maria mais chuvavam,


de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,


e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.


Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando


contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).


Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas dágua mais deliram,


e Maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.


Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,


e Maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,


e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,


e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, Maria! – e ela parou.


------------------------------------------------

BIOGRAFIA

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro. Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil. O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar. Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre. Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa. Em mão contrária traduziu os seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses), Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas), Marcel Proust (La Fugitive, 1925; A fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores, 1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino). Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

Fonte: http://www.releituras.com/drummond_bio.asp

---------------------------------

Ao lado de Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto e Mário Quintana, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE é um dos maiores poetas da língua portuguesa, ainda hoje não merecidamente estudado e compreendido. Uma das facetas que mais chamam a atenção na obra de Drummond é a criação neológica: Drummond era um notável criador de palavras, fazendo uso de processos mais diversos. Quem estudou este lado da sua obra foi a Professora Doutora Elis de Almeida Cardoso, docente do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Quando se pensa em criação, normalmente o primeiro nome que as pessoas evocam é o de João Guimarães Rosa, mas Drummond está no mesmo patamar criativo de seu conterrâneo de Minas. Vale a pena ler e decifrar os "claros enigmas" do poeta de Itabira...


Nenhum comentário:

Postar um comentário